Jéferson
Alves
As pessoas me
veem como se vê outra pessoa qualquer. Não fazem distinção pela minha
diferença. Perna torta? Hemangioma?
Manco? Encurvado? Deformado? Sou tudo isso, sim. E sei que sou e não tenho
vergonha, porque pra ter vergonha deve se pensar que está fazendo ou fez algo
de errado, o que não cabe a mim. Antes era facílimo arrumar namoradas e amigos,
quando ainda tinham sobre mim um olhar de coitado. Quando ainda conseguiam ver
em mim aquele que "precisa de ajuda" para viver. O ser humano é egoísta.
Mesmo quando minha felicidade depende de outro, ainda assim sou egoísta, pois
faço pelo outro para que eu fique feliz. São essas as lutas sociais. É buscar
para "os outros" o que eu acho que é o melhor pra mim. O ser humano
ajuda aquele que ele vê abaixo de si, em uma condição "inferior" a
sua, qualquer que seja, não por querer que esse melhore, mas sim para que possa
se sentir superior. Essa é uma teoria sobre o homem. E eu não consigo não
concordar, na maioria esmagadora das vezes. Mas será que, por não me colocar em
posição de coitado, por me ver forte e por ser forte, e por forte quero dizer
por ter uma "força ativa", por viver de mim para mim, por colocar em
mim o ponto de partida e de chegada dos meus objetivos, por ser mais forte até
do que aqueles que se julgam "normais", sem "deformações",
eu não passaria uma espécie de arrogância? Uma superioridade inexistente pra
mim, na minha visão, mas visível a outros que entendem isso como egocentrismo?
Não seria a minha vida um problema para aqueles "empata fodas" que
existem aos montes pelo mundo, que não conseguem ver quem está ao seu redor
bem, que precisam da ruína alheia para que não se sintam como vermes
sanguessugas? Será que esses de "força reativa", como diria o velho
bigodudo Nietzsche, não teriam aquele que é um dos pecados máximos, eu diria
nem pecado, para não cair em religião, mas sim o sentimento do fraco, a inveja
contra os de força ativa, aqueles que fazem de si a fonte de felicidade, que
tiram de si a força para viver, que usam sua "vontade de potência" em
prol de si mesmo? Será que esses não ficam tristes ao perceberem que não
conseguem ter uma vida digna de si mesmos pois se preocupam demais com o que
tem a sua volta ou com o que estão pensando a sua volta? E já para aqueles que
poderão atacar com o famoso discurso puramente fraco de "você é egoísta,
só pensa em si mesmo, se acha mais que os outros", tenho um pé em
Schopenhauer, que fala da modéstia (em Parerga e Paralipomena), assim:
"Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de
si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade
hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os
méritos que os outros não têm?". E sim, tenho qualidades e méritos que
outros não tem, assim como outros tem qualidades e méritos que eu não possuo. E
são incontáveis estes últimos. Na velha história da legitimidade, onde só é
legítimo aquilo que duas partes consideram legítimo, um xingamento para mim não
faz efeito. Um "manco!", mesmo que bem gritado, não surte efeito
depreciativo em mim, uma vez que sou sim manco e não vejo isso com a
legitimidade que querem empregar os que assim me chamam. Muitos casos são
semelhantes. O gordo, o negro, o pobre, o empregado, o lixeiro, o mendigo, a
mulher, o gay, a lésbica, o síndrome de down, o Stephen Hawking. Tem causas
sociais e há preconceitos? Claro! Mas não existe sociedade sem isso, ainda mais
onde não se cria para a diferença, mas sim para a igualdade e a padronização. E
mais: o gordo é gordo, mas só será xingamento o "gordo" quando esse
sentir-se como errado em ser gordo; o negro é negro, e só será xingamento
quando esse se sentir errado, ou inferior, por ser negro. E todos, sem exceção,
dos que estão vivos, tem limites, como já disse, sejam intelectuais, sejam
corporais, sejam emocionais, sejam sociais. Tenho alguns também, como bom ser
humano que sou. Conheço meus limites. Não poderei ser campeão de corrida como
Usain Bolt, ou talvez um jogador como Cristiano Ronaldo, nem um
"gênio" como Stephen Hawking, muito menos ainda um trilionário como
Bill Gates. Mas acredito sim que possa utilizar a parte importante (pra mim,
porque para a maioria não é) de mim, o intelecto, para buscar o que me dá o
maior ganho de potência, o maior ganho de energia vital, ou que se chama
vulgarmente de felicidade. Aquela história de "posso ser o que eu
quiser" não funciona. Poderei sim fazer das possibilidades que tenho o
melhor para mim, mas "querer é poder" não é uma frase verdadeira. Na
verdade, verdades são inconstantes e, talvez, inverdades. É uma verdade que eu
seja "deformado"? Talvez. Mas, no meio de um grupo onde só se tenham
pessoas mancas, uma pessoa não-manca é a deformada, e aí a verdade já se torna
inverdade e "tudo aquilo que deixa de ser, nunca foi", disse uma vez
o tal de Parmênides. E daí tu me diz "mas esse teu texto também não é uma
verdade!" e eu te digo "acertou, amiguinho!". Mas é nesse texto
que está um dos pontos de partida para que eu possa viver a maior parte da
minha vida no ganho de potência. É aqui que falácias inúteis de "empata
fodas" perdem sua força.
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